Molécula desenvolvida por pesquisadores brasileiros e estrangeiros eliminou parasitas em testes laboratoriais e em camundongos, além de não apresentar desenvolvimento de resistência nos experimentos realizados até agora
Nova molécula é testada contra parasitas resistentes
Pesquisadores brasileiros e estrangeiros identificaram uma molécula que apresentou resultados promissores no combate ao parasita responsável pela malária. O estudo contou com a participação do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da Universidade de São Paulo (USP) e avaliou 18 moléculas produzidas em laboratório a partir de estruturas químicas relacionadas a medicamentos já utilizados no tratamento da doença. Entre os compostos analisados, a molécula denominada 2d apresentou os resultados mais relevantes. (Jornal da USP)
A pesquisa foi desenvolvida diante de um dos principais desafios enfrentados atualmente no tratamento da malária: a capacidade do parasita de desenvolver resistência aos medicamentos disponíveis. Os pesquisadores testaram os compostos contra cepas de Plasmodium falciparum resistentes a múltiplos medicamentos e também utilizaram amostras de parasitas obtidas de pacientes da Amazônia brasileira.
Nos experimentos, o composto 2d conseguiu eliminar os parasitas presentes nas amostras analisadas. A molécula também apresentou atividade contra Plasmodium vivax, outra espécie responsável pela transmissão da malária e predominante em diferentes regiões do Brasil. Os resultados indicam que o composto pode representar um ponto de partida para o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas. (Jornal da USP)
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que a molécula ainda não é um medicamento disponível para pacientes. Antes de qualquer eventual aplicação clínica, será necessário realizar uma série de novas avaliações para determinar segurança, eficácia, dosagem e comportamento da substância no organismo humano.
Como o composto 2d atua contra o parasita
Uma das etapas da pesquisa foi entender de que maneira a molécula consegue combater o Plasmodium. Os experimentos indicaram que o composto 2d age rapidamente e se concentra próximo ao vacúolo digestivo do parasita, estrutura envolvida no processamento do sangue utilizado pelo microrganismo para obter nutrientes. (Jornal da USP)
Durante esse processo, o parasita precisa neutralizar substâncias que podem ser tóxicas para sua própria sobrevivência. Segundo os pesquisadores, o composto 2d interfere justamente nesse mecanismo de proteção. Como consequência, resíduos tóxicos gerados durante a digestão do sangue se acumulam no interior do parasita.
Esse acúmulo provoca a morte do microrganismo, criando um mecanismo de ação diferente daquele observado em alguns medicamentos tradicionais. A possibilidade de atacar o parasita por mecanismos distintos é considerada relevante diante da evolução da resistência aos tratamentos existentes.
Os pesquisadores também identificaram outra molécula de interesse, chamada 5a, que apresentou um mecanismo diferente. Nesse caso, o composto interfere na mitocôndria do parasita, estrutura responsável pela produção de energia necessária para sua sobrevivência. (Jornal da USP)
Testes com animais apresentaram resultado positivo
Além dos experimentos realizados em laboratório, a pesquisa avançou para testes com camundongos infectados pelo parasita da malária. Os animais receberam o composto 2d por via oral, e os pesquisadores observaram a eliminação completa dos parasitas detectáveis na circulação sanguínea durante os experimentos.
Outro resultado observado foi a sobrevivência dos animais tratados. Segundo os dados divulgados pelo IFSC/USP, os camundongos tratados com o composto apresentaram 100% de sobrevivência após 30 dias de acompanhamento. O resultado reforçou o interesse científico na molécula, embora ainda não permita concluir que o tratamento será seguro ou eficaz em seres humanos. (Jornal da USP)
Os pesquisadores também avaliaram a possibilidade de o parasita desenvolver resistência ao composto. Nos experimentos realizados em laboratório, não foi observado desenvolvimento de resistência ao 2d. Esse resultado é considerado relevante porque a resistência aos medicamentos representa um dos obstáculos para o controle da malária.
No entanto, a ausência de resistência nos testes não significa que a molécula seja incapaz de gerar resistência no futuro. Esse comportamento precisará ser acompanhado em novas pesquisas e em diferentes condições experimentais antes que qualquer conclusão sobre sua utilização terapêutica possa ser estabelecida.
Malária continua sendo um desafio para a saúde pública
A necessidade de novos medicamentos está relacionada à dimensão global da malária e à evolução da resistência aos tratamentos existentes. De acordo com os dados citados pelos pesquisadores, a doença provocou mais de 282 milhões de casos e aproximadamente 610 mil mortes em 2025, com crianças menores de cinco anos representando uma parcela importante das vítimas. (Jornal da USP)
O tratamento atual utiliza principalmente combinações baseadas em derivados da artemisinina. Medicamentos como cloroquina e atovaquona também fazem parte das estratégias terapêuticas utilizadas em determinadas situações. Entretanto, a disseminação de parasitas resistentes reduz a eficácia de algumas opções e aumenta a necessidade de novas alternativas.
No Brasil, a pesquisa possui uma importância adicional porque os cientistas utilizaram amostras de P. falciparum e P. vivax coletadas de pacientes em Porto Velho, em Rondônia. A utilização de amostras provenientes da Amazônia permite avaliar o comportamento dos compostos diante de parasitas encontrados em uma região onde a doença permanece relevante. (Jornal da USP)
Além do tratamento dos casos existentes, o desenvolvimento de medicamentos capazes de enfrentar parasitas resistentes pode contribuir para estratégias futuras de controle da transmissão. Para isso, entretanto, ainda são necessários estudos que comprovem a eficácia dos candidatos em diferentes estágios do ciclo do parasita.
Pesquisa ainda precisa avançar antes dos testes em humanos
Apesar dos resultados obtidos em laboratório e em animais, a molécula 2d ainda está distante de se tornar um tratamento disponível. O próximo passo envolve o aprimoramento de suas propriedades farmacêuticas, incluindo aspectos como estabilidade, solubilidade e comportamento da substância no organismo. (Jornal da USP)
Também serão necessários estudos pré-clínicos de segurança e toxicologia. Essas avaliações servem para determinar se a quantidade necessária para combater o parasita pode ser administrada sem provocar efeitos adversos incompatíveis com o desenvolvimento de um medicamento.
Somente depois dessas etapas poderão ser considerados os ensaios clínicos em seres humanos. A fase 1 normalmente avalia principalmente segurança e tolerabilidade em voluntários, enquanto as fases posteriores investigam eficácia, dose e desempenho do tratamento em pacientes com a doença.
Dessa forma, o resultado apresentado pela pesquisa deve ser entendido como uma etapa inicial de desenvolvimento farmacêutico. O composto ainda não pode ser utilizado como tratamento contra a malária, mas os resultados obtidos fornecem uma nova linha de investigação para enfrentar a resistência do Plasmodium aos medicamentos disponíveis.
