Anvisa amplia leque de canetas contra diabetes e obesidade e já soma 14 aprovações em 2026

Stefano Bellieri
Stefano Bellieri

A agência regulou dez versões de semaglutida, três de liraglutida e uma nova apresentação de tirzepatida neste ano, movimento puxado pelo fim da patente do Ozempic

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária ampliou de forma expressiva, ao longo de 2026, o número de medicamentos injetáveis disponíveis para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade no Brasil. Ao todo, já são 14 canetas aprovadas neste ano: dez à base de semaglutida, três de liraglutida e uma nova versão do Mounjaro, medicamento de tirzepatida. O movimento foi impulsionado principalmente pela queda da patente do Ozempic, da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, ocorrida em março, o que abriu caminho para a entrada de genéricos e similares no mercado nacional.

Para quem convive com diabetes tipo 2 ou obesidade, a notícia levanta uma dúvida recorrente nos consultórios: com tantas opções novas, qual medicamento é o mais indicado? Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a multiplicação de marcas não significa que os produtos sejam intercambiáveis entre si, nem que a escolha deva se basear apenas no preço. A decisão passa por uma avaliação médica individualizada, que considera o diagnóstico, o histórico de saúde e a tolerância do paciente a cada substância.

Por que existem tantas versões da mesma substância

A semaglutida, princípio ativo que ficou popularmente conhecido pelas marcas Ozempic e Wegovy, imita a ação do hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo. Esse hormônio participa do controle da glicose no sangue e da sensação de saciedade. Ao ativar os receptores de GLP-1, a substância ajuda a reduzir o apetite e contribui para a perda de peso, além de auxiliar no controle glicêmico de pacientes diabéticos.

Até março deste ano, a produção de medicamentos com semaglutida estava concentrada nas mãos da Novo Nordisk. Com o fim da exclusividade, uma sequência de aprovações se seguiu ao longo do ano: em 26 de maio, a Anvisa liberou o Ozivy, da EMS, primeiro produto do tipo registrado após a queda da patente. Em 29 de julho, outros cinco medicamentos de semaglutida foram aprovados de uma só vez. Em agosto, vieram o primeiro genérico da substância, também da EMS, além de produtos similares de outras farmacêuticas.

A endocrinologista Bruna Marinho, coordenadora do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, explica que a escolha entre esses medicamentos deve levar em conta o diagnóstico do paciente, a necessidade de perda de peso, doenças associadas, os estudos disponíveis para cada produto e a possibilidade de manter o tratamento por longos períodos. Esse último ponto costuma ser decisivo, já que obesidade e diabetes são condições crônicas que, na maioria dos casos, exigem acompanhamento farmacológico por meses ou até anos.

Liraglutida e tirzepatida: diferenças que pesam na escolha

Outra substância que ganhou reforço no mercado brasileiro em 2026 foi a liraglutida, também pertencente à classe dos agonistas do receptor de GLP-1. Em junho, a Anvisa aprovou uma nova versão sintética da substância, e, mais recentemente, dois medicamentos genéricos produzidos pela EMS também receberam registro, destinados ao tratamento tanto da obesidade quanto do diabetes tipo 2.

Uma diferença prática em relação à semaglutida é a frequência de aplicação. Enquanto a semaglutida costuma ser usada uma vez por semana, a liraglutida exige aplicação diária, o que reduz sua praticidade para parte dos pacientes. O endocrinologista Júlio Américo Batatinha, doutorando pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, afirma que esse fator ajudou a diminuir o espaço da liraglutida diante de opções mais recentes, ainda que ela mantenha um efeito relevante tanto na perda de peso quanto no controle glicêmico.

Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, segue sendo comercializada por um único laboratório no país, já que a substância ainda está protegida por patente. Diferentemente da semaglutida, ela atua sobre dois hormônios envolvidos no metabolismo, o GLP-1 e o GIP, sendo por isso classificada como um agonista duplo. Em março, a agência aprovou uma versão multidose do medicamento, com caneta reutilizável que permite mais de uma aplicação a partir do mesmo frasco.

Efeitos colaterais e custo entram na conta médica

Os possíveis efeitos colaterais também influenciam diretamente a definição do tratamento. Por atuarem sobre o sistema gastrointestinal, essas substâncias podem provocar náusea, dor abdominal, refluxo, constipação e outras alterações no funcionamento do intestino. Para a endocrinologista Alana Rocha, professora da Afya Educação Médica em Vitória, esse é um dos fatores levados em conta quando se avalia a troca de um medicamento por outro, junto com as comorbidades apresentadas pelo paciente, como problemas hepáticos ou cardíacos.

O preço também segue sendo um obstáculo relevante para o acesso a esses tratamentos. O Ozempic é vendido, em programas de desconto, por valores que variam entre R$ 975 e R$ 999, dependendo da dosagem. Já o Ozivy, primeiro concorrente pós-patente, chegou às farmácias com preços entre R$ 452 e R$ 498 por caneta. No caso dos genéricos, a legislação brasileira determina que o valor seja, no mínimo, 35% inferior ao do medicamento de referência, o que projeta preços ainda mais acessíveis para as próximas opções que chegarem ao mercado.

Vale lembrar que a dulaglutida, outra substância da mesma classe, também está disponível no país por meio do Trulicity, mas ainda não tem versões genéricas ou similares aprovadas, já que segue protegida por patente. Segundo especialistas, essa substância apresenta menor potência para redução de peso quando comparada à semaglutida e à tirzepatida, o que reduziu seu uso com a chegada de medicamentos mais recentes ao mercado.

O que considerar antes de buscar o tratamento

Diante desse cenário de expansão de opções, a orientação de especialistas é clara: a escolha do medicamento deve ser sempre feita em conjunto com um médico, de preferência um endocrinologista, capaz de avaliar o quadro clínico completo do paciente. Fatores como comorbidades, histórico de doenças gastrointestinais, capacidade de manter o tratamento a longo prazo e tolerância aos efeitos colaterais precisam entrar na equação antes de qualquer decisão.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Antes de iniciar qualquer tratamento para diabetes ou obesidade, procure orientação médica especializada.

Fontes:
https://sgc.com.br/noticia/7/449304/anvisa-aprova-14-novas-canetas-para-diabetes-e-obesidade-em-2026
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude

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