Gestão do conhecimento operacional e a dependência de pessoas

Stefano Bellieri
Stefano Bellieri
Rolando Bonaccorsi

Poucas discussões ganharam tanto espaço quanto a dependência de pessoas na operação, tema mapeado pelo Diretor de Operações da Vert Analytics, Rolando Bonaccorsi. Toda área de tecnologia tem aquele profissional que resolve em quinze minutos o que levaria dois dias para qualquer outro. A habilidade parece um ativo até o dia em que a pessoa entra em férias, muda de área ou recebe uma proposta melhor.

Conhecimento operacional é o conjunto de informações que faz um sistema continuar funcionando, e quase nunca está no manual do fornecedor. Envolve a ordem certa de reiniciar serviços, o parâmetro que precisa ser ajustado em dia de fechamento e o histórico de por que determinada configuração ficou daquele jeito. Pouco disso costuma estar escrito, e o que está escrito nem sempre acompanha a última mudança feita no ambiente.

A operação que roda na memória de poucos

A concentração de conhecimento aparece primeiro no tempo de resposta a incidentes. Chamados que dependem de uma pessoa específica ficam parados até que ela apareça, enquanto outros profissionais tecnicamente capazes seguem sem contexto para agir. No diagnóstico de Rolando Bonaccorsi, o gargalo raramente é de competência, e sim de informação distribuída de forma desigual entre pessoas igualmente preparadas.

O segundo efeito é cultural. Quem detém o conhecimento passa a ser consultado o tempo todo e perde capacidade de trabalhar em frentes novas, enquanto o restante da equipe deixa de desenvolver autonomia sobre os mesmos sistemas. A dependência cresce em silêncio e só é dimensionada quando alguém pede demissão em uma semana crítica. A conta chega inteira e sem aviso prévio.

Documentação que envelhece mais rápido que o sistema

Documentar não resolve sozinho, porque documento desatualizado atrapalha mais do que ausência de documento. Procedimento escrito para uma versão anterior leva o plantonista a executar passos que já não existem, custando tempo em um momento em que o relógio pesa. A validade do registro importa tanto quanto a existência dele, o que desloca a discussão da produção para a manutenção.

A saída costuma passar pela redução do escopo. Como interpreta Rolando Bonaccorsi, especialista em gestão de operações de TI e excelência em serviços, registrar poucos procedimentos realmente críticos e mantê-los vivos rende mais do que produzir uma biblioteca extensa que ninguém revisa, porque a manutenção também consome esforço de quem opera. Biblioteca extensa e desatualizada dá falsa sensação de cobertura.

Rotinas que transformam experiência em registro

Conhecimento vira registro quando a rotina obriga. Revisão de incidente com causa e passos de contorno escritos no mesmo dia, rodízio de plantão que força outra pessoa a executar o procedimento e revisão por pares antes de publicar um runbook produzem material testado, não teórico. A documentação nasce do trabalho, em vez de competir com ele por espaço na agenda de quem sustenta a operação.

O rodízio tem efeito adicional pouco comentado. Na concepção de Rolando Bonaccorsi, colocar quem não escreveu o procedimento para executá-lo revela as lacunas que o autor nem percebe, porque o especialista omite naturalmente o que considera óbvio. O teste prático funciona como revisão de qualidade do próprio registro e distribui o conhecimento sem reunião adicional.

Medir a dependência antes de perder o especialista

Dependência pode ser medida sem constrangimento. Contar quantas pessoas conseguem executar cada procedimento crítico, quantos chamados foram escalados para um único nome no trimestre e quantos sistemas têm apenas um responsável produz um mapa objetivo de risco. Conforme apresenta Rolando Bonaccorsi, líder em IA e ciência de dados aplicadas a negócios e operações, o número orienta melhor que a percepção de risco construída em conversa de corredor.

O mapa também ajuda a priorizar. Nem todo sistema justifica redundância de conhecimento, porque alguns toleram horas de indisponibilidade sem impacto relevante. Concentrar esforço nos poucos pontos em que a parada custa caro, distribui a atenção de forma proporcional ao risco, sem transformar o tema em projeto permanente de documentação. A meta razoável não é eliminar a dependência de pessoas, algo improvável em qualquer operação, e sim mantê-la em patamar tolerável.

Compartilhe esse artigo