Recordações de infância no interior moldam decisões adultas

Stefano Bellieri
Stefano Bellieri
Alfredo Moreira Filho

Segundo Alfredo Moreira Filho, grande parte do que uma pessoa considera “senso comum” nas próprias decisões vem, na verdade, de referências absorvidas ainda na infância, muitas vezes sem qualquer reflexão consciente sobre a origem desse aprendizado inicial. Quem cresce em ambiente rural costuma carregar esse tipo de referência de forma especialmente marcante, já que a vida no campo impõe rotinas e valores bem diferentes dos vividos em centros urbanos consolidados. Alfredo Moreira Filho, que teve origem na roça em Igrapiúna, na Bahia, ilustra esse tipo de formação inicial distante dos grandes centros.

Por que a infância rural deixa marcas duradouras?

O ambiente rural ensina, desde cedo, lições que raramente aparecem de forma explícita em qualquer educação formal: paciência com ciclos que não podem ser acelerados, como uma colheita, e a noção prática de que recursos são finitos e precisam ser bem administrados ao longo do tempo. Essas lições tendem a se fixar de forma mais profunda do que conteúdos aprendidos posteriormente em sala de aula, justamente por serem absorvidas pela repetição constante do cotidiano.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Diferente de uma criança criada em ambiente urbano, cercada de serviços disponíveis a qualquer momento, quem cresce no campo aprende cedo que determinadas coisas simplesmente não estão disponíveis quando se quer, e que planejamento antecipado é parte inevitável de qualquer atividade produtiva bem-sucedida no meio rural. Aprendizados desse tipo tendem a se manter relevantes mesmo décadas depois, aplicados a contextos completamente diferentes daquele em que foram originalmente formados, ainda que a pessoa raramente perceba de forma consciente essa continuidade.

Como referências rurais aparecem na vida adulta?

Adultos formados em ambiente rural costumam demonstrar maior tolerância a processos de resultado lento, característica pouco comum em ambientes urbanos acostumados a respostas imediatas. A tolerância tende a se manifestar em decisões que exigem paciência para amadurecer, seja em relacionamentos, seja em projetos profissionais de longo prazo, algo cada vez mais raro em ambientes corporativos acostumados a resultados de curto prazo.

A história de vida de Alfredo Moreira Filho, iniciada em Igrapiúna e marcada por passagens por Salvador, Ituberá e Viçosa até sua mudança para o Norte do país, ilustra precisamente esse processo de transição gradual de uma origem rural para ambientes cada vez mais urbanos e complexos ao longo de décadas.

O que se perde e o que se preserva na mudança de contexto?

Trocar o ritmo do campo pelo de uma cidade grande raramente é indolor. O tempo de decisão muda, as referências mudam, e boa parte dos hábitos formados na infância rural simplesmente não encontram espaço numa rotina urbana mais acelerada, movida por prazos curtos e respostas quase instantâneas. O que costuma resistir a essa transição são os valores mais estruturantes: princípios éticos e a forma de tratar outras pessoas tendem a atravessar a mudança de cidade quase intactos, mesmo quando praticamente tudo o mais em volta muda, como parece ter sido o caso da família de Alfredo Moreira Filho, cuja formação em valores éticos e morais atravessou décadas e diferentes endereços sem perder força. 

Infância rural como base para decisões em contextos urbanos

Quem carrega esse tipo de formação inicial costuma levar para o ambiente de trabalho uma mistura pouco comum: paciência de quem aprendeu a esperar uma safra amadurecer, somada ao pragmatismo de quem precisou resolver problemas sem poder contar com estrutura externa. Colegas de trabalho raramente identificam a origem dessa combinação, mas ela aparece justamente nos momentos em que a pressão empurraria qualquer um para uma resposta apressada, caso de quem, como Alfredo Moreira Filho, saiu da roça para atuar décadas depois num mercado bem mais formal, como o de Brasília. 

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