Medicina privada e desempenho acadêmico: por que alunos de faculdades particulares vão pior no Enamed

Diego Velázquez
Diego Velázquez

O desempenho de estudantes de medicina no Brasil voltou ao centro do debate educacional após a divulgação de resultados que indicam vantagem consistente de alunos da rede pública em avaliações nacionais. O cenário levanta questionamentos sobre qualidade de formação, expansão acelerada de cursos e critérios de regulação do ensino superior. Ao longo deste artigo, será analisado o que explica essa diferença de rendimento, quais fatores estruturais influenciam a formação médica e que impactos essa realidade pode ter para o sistema de saúde e para o futuro da profissão.

A expansão dos cursos de medicina no Brasil, sobretudo na rede privada, transformou profundamente o acesso à formação médica nas últimas duas décadas. O aumento no número de vagas foi frequentemente apresentado como solução para a escassez de profissionais e para a interiorização da assistência em saúde. No entanto, a ampliação acelerada trouxe consigo um desafio inevitável: garantir que a qualidade do ensino acompanhe o ritmo do crescimento.

Quando os resultados de avaliações nacionais revelam desempenho inferior predominante entre alunos de instituições privadas, a discussão deixa de ser apenas estatística e passa a ser estrutural. Não se trata de comparar estudantes individualmente, mas de observar as condições institucionais que moldam a formação acadêmica.

Uma das explicações mais relevantes está na seletividade do ingresso. Universidades públicas, em geral, mantêm processos altamente competitivos, com notas de corte elevadas e forte concorrência. Esse filtro inicial tende a concentrar estudantes com histórico acadêmico sólido e maior preparo teórico. Já a expansão da rede privada, embora amplie oportunidades, frequentemente adota critérios de acesso mais flexíveis, o que gera turmas com perfis acadêmicos mais heterogêneos.

Outro fator importante envolve a estrutura pedagógica. Instituições públicas tradicionais costumam dispor de hospitais universitários consolidados, programas de pesquisa ativos e integração histórica entre ensino, prática clínica e investigação científica. Esse ambiente favorece o raciocínio crítico, a vivência prática diversificada e o contato contínuo com casos complexos.

Em contraste, muitas faculdades privadas mais recentes ainda estão em processo de consolidação de infraestrutura. A criação de laboratórios, convênios hospitalares e programas de residência exige investimento contínuo e maturidade institucional. Quando essa estrutura ainda está em formação, a experiência prática do estudante pode se tornar mais limitada ou irregular.

O modelo pedagógico também merece atenção. A formação médica exige equilíbrio entre conteúdo teórico rigoroso e treinamento clínico intensivo. Em instituições onde há maior pressão financeira ou necessidade de rápida expansão, pode haver dificuldades em manter esse equilíbrio com a mesma consistência observada em universidades mais tradicionais.

Existe ainda a questão do corpo docente. A carreira acadêmica nas universidades públicas tende a ser estruturada em regime de dedicação exclusiva, com incentivo à pesquisa e à produção científica. Esse modelo contribui para atualização constante do conteúdo e para uma cultura acadêmica mais exigente. Em parte da rede privada, a composição do quadro docente pode ser mais fragmentada, com professores dividindo atividades entre diferentes instituições ou priorizando a prática clínica externa.

O impacto dessas diferenças ultrapassa o ambiente universitário. A qualidade da formação médica influencia diretamente a segurança do paciente, a eficiência do sistema de saúde e a capacidade de inovação científica. Quando surgem sinais consistentes de desigualdade no desempenho acadêmico, o tema deixa de ser apenas educacional e passa a ser uma questão de interesse público.

Isso não significa que todas as instituições privadas ofereçam formação inferior, nem que universidades públicas estejam imunes a falhas. O ponto central é a tendência geral observada em avaliações padronizadas. Tendências revelam padrões estruturais e, portanto, exigem respostas sistêmicas.

Entre as possíveis respostas está o fortalecimento da regulação e da avaliação contínua dos cursos. A abertura de novas faculdades de medicina precisa estar condicionada à comprovação efetiva de infraestrutura, qualidade docente e integração com a rede de saúde. Avaliações nacionais devem funcionar não apenas como instrumentos de diagnóstico, mas como mecanismos de melhoria.

Outro caminho envolve o investimento em qualidade pedagógica, independentemente do modelo institucional. Metodologias ativas de aprendizagem, simulação clínica avançada, supervisão prática rigorosa e incentivo à pesquisa são elementos que podem elevar o padrão formativo em qualquer ambiente acadêmico.

Há também uma dimensão social relevante. Muitos estudantes optam pela rede privada devido à limitação de vagas públicas, não por preferência educacional. Assim, discutir qualidade no ensino médico privado também significa discutir equidade de acesso a uma formação de excelência.

O debate sobre desempenho acadêmico revela algo maior do que uma simples comparação entre redes de ensino. Ele expõe o desafio de equilibrar expansão educacional com responsabilidade formativa. Em um país que depende fortemente do sistema público de saúde e enfrenta desigualdades regionais significativas, a formação médica não pode ser tratada como um mercado comum.

Garantir qualidade homogênea na educação médica é um compromisso com o futuro da assistência em saúde, com a confiança da sociedade nos profissionais e com a sustentabilidade do próprio sistema formador. O crescimento do número de médicos só cumpre sua função social quando acompanhado de excelência acadêmica consistente.

O cenário atual funciona como alerta e oportunidade. Alerta para a necessidade de ajustes estruturais e oportunidade para repensar o modelo de formação médica no Brasil de maneira mais integrada, exigente e orientada ao interesse público. O desafio não está apenas em formar mais médicos, mas em formar melhores médicos em todas as instituições.

Autor: Diego Velázquez

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