A recente aprovação de um novo medicamento para o tratamento da doença de Alzheimer no Brasil representa um avanço significativo na abordagem terapêutica dessa condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e provoca impacto profundo na vida de pacientes e familiares. A Anvisa liberou o uso do medicamento Leqembi para pacientes adultos com comprometimento cognitivo leve e demência leve decorrentes da doença de Alzheimer em estágio inicial, uma etapa em que as opções terapêuticas disponíveis ainda eram limitadas e focadas principalmente em controlar sintomas, e não na modificação da progressão da condição.
Desenvolvido pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, o medicamento tem como princípio ativo o lecanemabe, um anticorpo monoclonal de imunoglobulina humanizada que se liga preferencialmente a formas solúveis e agregados da proteína beta-amiloide no cérebro. Esse mecanismo de ação é central para a nova proposta terapêutica, pois o acúmulo de placas de beta-amiloide é considerado um dos fatores fisiopatológicos que contribuem para a degeneração neuronal e o declínio cognitivo característico da doença de Alzheimer.
O processo de aprovação junto à Anvisa envolveu a análise de dados de um estudo clínico principal que incluiu quase 1 800 pessoas com Alzheimer em fase inicial e confirmado acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro. Os resultados apontaram que, após aproximadamente 18 meses de tratamento, os pacientes que receberam o medicamento tiveram um aumento menor em medidas de gravidade da doença avaliadas por escalas de demência quando comparados aos pacientes que receberam placebo, sugerindo um efeito de desaceleração no declínio cognitivo.
A administração do medicamento ocorre por infusão intravenosa aproximadamente a cada duas semanas, em sessões que duram cerca de uma hora, sob supervisão de profissionais de saúde capacitados. Essa forma de aplicação exige uma estrutura clínica adequada e cuidados rigorosos com a monitorização dos pacientes durante e após o procedimento, aspectos que entram como parte das discussões sobre logística e acesso ao tratamento em diferentes regiões do país.
Embora o medicamento represente uma nova alternativa terapêutica para pessoas na fase inicial da doença, ele não está isento de riscos. Entre as reações adversas observadas estão eventos relacionados à infusão, dores de cabeça e, em casos mais raros, alterações de imagem no cérebro que podem indicar edema ou pequenos sangramentos. Por isso, a seleção criteriosa de pacientes e a realização de exames como ressonância magnética antes do início do tratamento são recomendadas para reduzir a probabilidade de complicações graves.
Especialistas ressaltam que o medicamento não é uma cura para Alzheimer, mas sim uma ferramenta que pode retardar a progressão cognitiva em pacientes que ainda se encontram em estágios iniciais da condição. Isso traz esperanças realistas de prolongar a qualidade de vida e a autonomia de indivíduos afetados pela doença, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo com neurologistas e equipes multidisciplinares.
A entrada desse medicamento no mercado brasileiro abre discussões sobre políticas de saúde, acesso a tratamentos inovadores e os desafios de integrar terapias de alta complexidade no contexto do sistema público e privado. A perspectiva de custos, a necessidade de infraestrutura especializada e a capacitação de profissionais formam um cenário que exige planejamento e investimento para que os benefícios potenciais alcancem um número cada vez maior de pacientes.
Finalmente, a chegada desse tratamento ao Brasil segue tendências internacionais observadas em países como os Estados Unidos e na União Europeia, onde medicamentos com ação direcionada às placas de beta-amiloide vêm sendo incorporados às opções terapêuticas disponíveis, sempre com a ressalva de que a doença de Alzheimer é multifatorial e complexa, demandando uma abordagem que combine terapias médicas, suporte psicossocial e cuidados de longo prazo.
Autor : Roman Lebedev
